Textos
Alguns trabalhos abordando temas diversos, recentemente publicados em jornais e revistas, com suas referências bibliográficas.
A ROTA DO ESCRAVO

        Sob a proposta do Haiti, a 27ª Conferência-Geral da UNESCO aprovou em 1993 o projecto a “A Rota do Escravo” (Resolução 27C/3.13), cujo lançamento teve lugar no ano de 1994 em Ouidah, Benin, com a intenção de manter viva a memória do comércio negreiro, promovendo iniciativas que visem educar, informar, sensibilizar e preservar esse património histórico mundial e, também, incentivar o estudo do tráfico de escravos na pluralidade de memórias, culturas e representações.

       O projecto teve um significativo impacto porque suscitou interesse crescente em diferentes países do mundo, principalmente nos que foram afectados pela escravatura, gerando uma dinâmica que favoreceu o reconhecimento do tráfico de escravos e a escravatura como “crime contra a humanidade”.

        Sobre a mesma rememorou o Presidente da República Jorge Carlos Fonseca, nestes termos: “Durante séculos, homens e mulheres submeteram seus semelhantes ao regime da escravatura, traduzida na coisificação do ser humano, tornando-o objecto do mais infame tráfico de que há memória. Homens caçados como bichos; utilizados como animais de tracção; tratados abaixo de cão; humilhados e seviciados na via pública; transportados em porões nos navios e armazenados em barracões nas propriedades, sem o mínimo de condições; trabalhando sem horário, sem descanso, sem salário. Homens declarados em manifestos como carga indiferenciada; negociados em feiras como gado; sem direitos; sem nada”.(1)

        O conceito de “rota” desenvolvido pretende ilustrar o movimento de trocas que se processou através da escravatura, encarado como um campo de diálogo intercultural, cujas problemáticas são da maior importância para as sociedades modernas visto responderem à procura de referenciais comuns.

        Assim, ao conferir projecção internacional à iniciativa, o estudo da escravatura contribuiu para que se tomasse conhecimento da dimensão daquela tragédia, a partir de campanhas de sensibilização, desenvolvimento de trabalhos de investigação, publicação de livros, produção de materiais audiovisuais e pedagógicos, que integram questões relativas à evocação e transmissão da memória histórica de uma maneira científica e rigorosa.

         Como consequência, nestes vinte anos uma ampla gama de programas culturais e educacionais tem destacado as transformações globais resultantes da referida calamidade, apoiado a consciencialização acerca da escravidão, suas consequências e propiciado o reconhecimento desse património comum construído ao longo dos séculos.

        Foi com base nessa contextualização que a UNESCO exortou os governos dos Estados membros a assinalarem o 20º aniversário do projecto “ A Rota do Escravo” partindo de uma reflexão centrada na reconciliação, reapropriação das raízes, diversidade cultural, diálogo intercultural e identidades plurais.

         Respondendo à solicitação, o Governo de Cabo Verde pretende realizar um conjunto de actividades consubstanciadas num programa a ser desenvolvido com parcerias entre entidades públicas e privadas, sob a coordenação da Comissão Nacional de Cabo Verde para a UNESCO, que “se propõem imbuídas do sentido de reconhecimento do dever de memória, do dever de educar, informar, sensibilizar e preservar o património histórico, numa abordagem pedagógica, mostrando as contribuições civilizacionais dadas pelos escravos ao longo dos séculos nos mais diversos domínios, cultural, tecnológico, económico, social. Pretende-se, igualmente, evidenciar ao longo das comemorações o potencial turístico e pedagógico deste passado, enquanto parte integrante do projecto de desenvolvimento do país.” (2)

          Convém ter presente que no caso concreto de Cabo Verde o comércio escravocrata e o tráfico negreiro foram marcantes na formação da nossa sociedade por via da mestiçagem, que poderá ser encarada em duas vertentes: a miscigenação de que resultou um fenótipo com diversas gradações (e denominações) e a interpenetração sociocultural que construiu a nossa cultura específica.

         Acresce que a localização geoestratégica de Cabo Verde proporcionou que a “ilha grande” se constituísse num importante “ponto de encontro” de culturas diferentes através da convergência na antiga Ribeira Grande de comerciantes e marinheiros oriundos da Europa, África e Américas, alvitrando-se quase que o lançamento das bases da actual globalização.

          Por tudo isso, a escravatura não é algo do passado mas sim o nosso assentamento histórico, pois moldou a estruturação da sociedade cabo-verdiana ao projectar de forma irreversível o nosso destino e gerar laços indissolúveis com outros povos e continentes.

           Entrementes, recorda Correia e Silva que muitas vezes aborda-se a escravatura apenas pelo lado da exploração e violência, mas tratou-se também de "um momento de transferência de tecnologia, de cultura e de grande inovação". Motivo porque “queremos valorizar todo o contributo que os escravos deram para a nossa sociedade e mostrar a escravatura nas suas diversas dimensões".(3)

           Saliente-se, a propósito, que embora o arquipélago tenha sido um dos vértices do triângulo do importante tráfico Atlântico (África – Cabo Verde – Américas), o país não fez parte do alinhamento inicial do roteiro em questão, conseguindo, no entanto, ser integrado numa segunda fase.

           Mas comenta Margarida Fontes: “O facto é que desde a oficialização do Projecto Rota dos Escravos em Ouidah no Benin, (1994) criado pela UNESCO em 93, (20 anos passados) Cabo Verde ainda não criou uma comissão nacional, a exemplo de todas as nações que enfrentaram esse fenómeno. Acho até irónico que os poucos trabalhos realizados sobre a escravatura em Cabo Verde, no âmbito desse projecto, tenham sido feitos com a comissão de Portugal. Sem a comissão da Rota dos Escravos não há seguimento, não há visibilidade, nem financiamento a projectos relevantes sobre a Escravatura envolvendo Cabo Verde. Sem isso o cabo-verdiano irá continuar a conviver com o lamentável desconhecimento de um dos mais globais episódios da sua História”. (4)

           Porém, realçando a importância das comemorações do 20º aniversário do projecto, afirmou o primeiro-ministro José Maria Neves: "A rota dos escravos é fundamental para a construção do futuro de Cabo Verde. Temos de conhecer muito bem o nosso passado, que é extraordinariamente rico. A história ainda precisa ser contada, precisamos reconstituir a rota global dos escravos e a participação de Cabo Verde".

           Assim, dado seu interesse está previsto alargar a 2015 as actividades, por forma a ligar esta efeméride à “Década das Nações Unidas para as pessoas de ascendência africana, 2015-2014”. Para tanto estão em preparação diversificadas acções englobando exposições itinerantes, exibição de filmes sobre esta temática, conferências, debates televisivos, publicação de suplementos culturais em jornais, abordagem da matéria em programas televisivos e realização de um fórum para discutir a integração do ensino tráfico negreiro e da escravatura nos programas escolares.

           Salienta o Ministro do Ensino Superior, Ciência e Inovação, que a sociedade cabo-verdiana esteve no início da rota dos escravos, mas até agora tem tido "um papel que não honra" o seu lugar na história, ressaltando que se deve aproveitar o facto de o país estar a comemorar o 20.º aniversário de "A Rota do Escravo" para "recuperar o atraso" e "recolocar Cabo Verde no centro do projecto mundial".

            Acautela ainda Correia e Silva: “Temos é que investir na produção de obras científicas e pedagógicas e transformar a nossa herança em produto, que pode enriquecer a nossa oferta turística e garantir o nosso destaque na história, tendo em conta que temos a primeira cidade escravocrata do mundo”.(5)

            Constata-se, portanto, que apesar de a sociedade cabo-verdiana ter sido construída numa base maioritária de escravos, para além da monumental obra de António Carreira, publicada há mais de meio século, infelizmente ainda não apareceram “estudos de fôlego” em Cabo Verde centrados nesta importante temática.

            Daí se esperar que estes alertas consigam despertar interesse junto de investigadores e estudiosos nacionais no sentido de complementarem o trabalho daquele historiador ou, se for caso disso, corrigirem possíveis análises então elaboradas.

1 - Mensagem por ocasião do “Dia Internacional da Abolição da Escravatura” (02-012-2013).

2 - Inforpress, 11-09-2014.

3 - Lusa, 12-09-2014.

4 - Facebook, 09-09-2014.

5 –Lusa, 12-09-2014.

 

(A Nação nº 374, de 30 de Outubro a 5 de Novembro de 2014)