Textos
Alguns trabalhos abordando temas diversos, recentemente publicados em jornais e revistas, com suas referências bibliográficas.
GÉNESE DA CLARIDADE - REVISTA DE ARTE E LETRAS

Dado que se tem vindo a especular bastante acerca dos possíveis fundadores da Claridade - Revista de Arte e Letras, publicada no Mindelo em 1936, o intuito destes despretenciosos  apontamentos visa apenas e simplesmente fornecer um modesto contributo no sentido do esclarecimento desta temática.

Sobre o assunto, Manuel Lopes, um dos considerados como “fundadores” da Claridade, salientou que “esta onda de curiosidade acompanhada de certa abundância de versões, parece [-me] explicar-se pela importância atribuída ao papel da Claridade na evolução histórico-cultural das nossas ilhas”. Porém, complementa: “È verdade que há certas versões que não podem abrigar na minha consciência” [1] (1).

A titulo exemplificativo, citaremos o caso de Manuel Ferreira, por se tratar de um renomado estudioso das literaturas africanas em língua portuguesa, e que muito escreveu sobre a literatura cabo-verdiana, para além de ter elaborado um longo “Prefácio” para a edição fac-similada reunindo os nove números da Claridade, publicada por altura do cinquentenário da revista (2), onde afirma categoricamente: “Os jovens intelectuais no trânsito que lhes coube para a fundação da Claridade: Baltasar Lopes, Manuel Lopes e Jorge Barbosa”, para depois acrescentar “e, no início dos actos preparatórios, o Jaime de Figueiredo e, mais afastado e não menos interessado, João Lopes”(3). O mesmo autor volta a, tendenciosamente, reafirmar noutra entrevista: “(…) Vai surgir a Claridade, em 1936, que tem como fundadores Baltasar Lopes, Manuel Lopes, Jorge Barbosa, e também Jaime de Figueiredo e, muito próximo João Lopes “ (4). Desta feita Manuel Ferreira resolveu incluir “também Jaime de Figueiredo” e já situa João Lopes “muito próximo” do “Grupo”, mas não o integra no mesmo.

Embora seja sobejamente por todos sabido que dos mitos também se faz a história, tudo aquilo que intuitivamente choca por não corresponder à verdade merece reparo. Relativamente ao caso em apreço, é nosso entendimento que se está ainda a tempo de proceder á correcta reposição dos factos e, principalmente, fornecer aos mais jovens um apurado panorama da evolução dos acontecimentos e respectiva correlação com os participantes na dinâmica que conduziu à Claridade - Revista de Arte e Letras.

Acontece que, já em 1954, alertava Luís Romano: “A maior parte do público cabo-verdiano desconhece totalmente os pontos iniciais do maior movimento cultural que desde 1924 para cá se evidenciou e com tantas figuras de destaque no campo literário, merecendo por isso apreciações várias, intolerâncias e reacções do meio ambiente” (5).

Portanto, as comemorações assinalando o centenário da denominada “Geração dos Claridosos” constituirão um possível pretexto para a necessária tomada de consciência sobre o problema, porque passado todo esse tempo o panorama pouco se alterou, para além de negativamente ser acrescido de informações deturpadas, como adiante se constatará.

Para tanto socorrer-nos-emos de elementos respigados de textos dos chamados “fundadores da Claridade”, ou publicados ainda em vida dos mesmos, registos esses que nunca foram por aqueles contestados nem desmentidos, conferindo-lhes, deste modo, o estatuto de testemunhos credíveis.

Daí se constatar, a partir dos dados carreados, que aquilo que poderemos considerar  como a “génese” da Claridade, constituiu uma longa caminhada englobando diversas personalidades, que perseverantemente se envolveram numa aventura de certo modo pioneira no contexto das literaturas dos PALOP.

Tanto mais que o próprio Baltazar Lopes da Silva chama a atenção para o facto no texto que fez para a referida edição fac-similada da Claridade: “Convém todavia notar que a data da publicação é apenas uma efeméride a marcar uma conjuntura que se situava num tecido de preocupações longamente alimentadas pelo grupo”(6).

Assim e no sentido de facilitar o esclarecimento que se impõe acerca da evolução do processo que culminou na publicação daquela revista, esse percurso poderá ser estruturado cronologicamente, e por comodidade de análise, em três “fases” com objectivos de certo modo diferentes: A primeira corresponde a um “período de arranque e reflexão” à volta do “Círculo Cultural”, em Fonte Cónego (1922), seguindo-se-lhe a da “Tertúlia”, na Praia (1928) e finalmente o aparecimento da Claridade, no Mindelo (1936).

Nesta tentativa de reconstituição do respectivo historial, começaremos por salientar na “fase inicial” as reuniões realizadas no “Círculo Cultural” ou “ Clube Literário” (como também é referenciado), promovidas por João Lopes, que chegado dos EUA e Portugal, onde adquirira alguma formação, contactara com outras culturas, fundara um jornal e uma Associação Cultural, que informa a propósito: “Sempre com a febre das letras, continuo agitando ideias e em pouco tempo, depois de cá estar dois anos, formei o meu circulo de relações e promovo, em 1922, as primeiras reuniões do Circulo Cultural, que creio ter sido o primeiro do género em Cabo Verde, congregando no meu quarto de Fonte Cónego, um grupo da inteligentzia local, como Dr. Adriano Duarte Silva, Alberto Leite, Jorge Barbosa, José Lisboa, Francisco Azevedo e Pedro Ferreira Santos (7).

Nesse contexto, depois de uma primeira conferência proferida por João Lopes, seguiram-se outras e “ na segunda reunião, em casa do Dr. Adriano foi lida uma conferência sobre os Desportos, conferência essa que mais tarde ele pronunciou no salão nobre da Câmara Municipal de São Vicente.” (...) “ Entretanto o Alberto Leite prepara a sua conferência, que ele leu no Liceu, sobre a Cultura na Juventude (8). Datam também desta época os primeiros poemas de Jorge Barbosa, construídos muito certinhos com rima e métrica.

Aquela dinâmica cultural acompanhou João Lopes na sua mudança para a capital e informa: “Chegado a Praia, tomei a peito a publicação destas conferências. Foi publicada a do Adriano. Esteve composta no prelo a do Alberto leite, que não chegou a ser publicada porque ele deu sumiço às provas. Foi também publicada uma Carta Aberta lida por José Lisboa no Círculo Cultural em São Vicente” (9).

 

Na mesma sequência, João Lopes proferiu, também, outra conferência na Praia, em 1928 e, certamente devido ao bom relacionamento entre os dois, o texto traz a seguinte dedicatória: “A Jaime de Figueiredo solidário animador das coisas modernistas em Cabo Verde”.

Na cidade da Praia encontrava-se, pois, Jaime Figueiredo cheio de entusiasmo dada a  sua sensibilidade para as “coisas da cultura”, lendo e comentando números da Presença, revista então publicada em Coimbra, todavia sem que localmente o atendessem ou compreendessem os seus propósitos acerca das novas correntes literárias.

Daí Luís Romano escrever que “ no meio deste ambiente ostensivo, Jaime Figueiredo encontra em João Lopes o camarada, o amigo acolhedor e paciente, de que tanto precisava. Este de início escuta-o mais por amizade e por uma natural tolerância que lhe é peculiar”. (…)“Entretanto, João Lopes reconsidera melhor o sonho desse jovem, concede-lhe mais atenção, analisa esses sonhos irreverentes e chega também a um grande entusiasmo donde a ideia se concretiza em matéria”( 10).

Salientou, também, João Lopes que “já nesse tempo o Jaime era possuidor de seguros e invulgares conhecimentos do movimento literário renovador que ia pelo mundo” e que na Praia essa mudança começou “por uma agitação única no género, conduzida por um só individuo - Jaime de Figueiredo”, o qual  “indispunha assim a bonzaria e os mitos mal alicerçados nas suas bases frágeis. É claro que o Jaime era incompreendido e provocava revolta no seio do clã de manipansos consagrados que acaciosamente vinham pontificando” (11). Acrescenta, ainda, o mesmo: “O Jaime trabalhava nos baixos do prédio da Casa Madeira e as reuniões faziam-se no meu quarto, no 3º piso do prédio Salomão, na Praia” (12).

 

      Entretanto, cerca de 1925 chegou à Praia, Julião Quintinha enviado pelo Jornal da Europa a fim de recolher elementos para um “número especial” daquela publicação dedicado a Cabo Verde (24-04-1927), e “deparou com este grupo solitário agitador das coisas do espírito entre nós, trazendo debaixo de braço pelas bancadas da Praça Albuquerque, números de Presença com sua literatura revolucionaria” (13).

 

Segundo o mesmo autor, “Quintinha delirou com o achado”, de modo que “ Quintinha, Jaime, eu e outros formámos a tertúlia na casa Madeira onde eu residia ao tempo”. Enquanto isso, os membros dos referidos encontros aumentaram, porque, “algum tempo depois vieram juntar-se ao grupo dois elementos novos portadores de curiosas mensagens: Virgílio e Fausto Duarte, vindos da Alemanha onde um frequentava um curso superior”(14).

 

     Porém, João Lopes especifica melhor a dinâmica do “Grupo”: “Uma verdadeira euforia de cultura literária” (...) “Era uma verdadeira academia”. Para seguidamente informar que as mesmas extrapolaram o espaço do seu quarto: “Quintinha, Jaime e eu, fizemos juntos excursões e tomadas de contactos folclóricos à Cidade Velha”. (…) “Nestas viagens fez-se larga reportagem fotográfica de tudo quanto havia de histórico na notável Cidade Velha, conduzida pelo técnico José Freire” (15).

 

Complementarmente, “organizou-se uma Comissão Pró-Cidade Velha, publicou-se um manifesto subscrito pelo venerando Monsenhor Bouças, Corsino Lopes e eu. Enfim, tinham-se lançado as raízes da Cabo-verdianidade, tendo como pano de fundo a simbólica Cidade Velha” (16), num texto publicado em 1933 (Sublinhado nosso).

 

 Os contactos com intelectuais europeus continuaram, porque tempos depois (1929) apareceu na Praia António Pedro (17), “que, caso curioso, não se identificou com o meio, sendo aliás nativo, surpreendeu aos nossos fenómenos como um estranho, mas nem por isso deixou de os tratar como uma mestria profunda, encarando os anseios e os dramas com mera compreensão pasmosa, desde a árvore solitária na encosta da achada batida pelo vento, crestada pelo sol, que projecta a sua contorcida e triste silhueta no horizonte, ao batuque, poema de carne nua em que a sua interpretação é das mais profundas que tenho lido, indo o trabalho num crescendo desde o sibilar em surdina do simbó ao rufar pletórico do bombo, sempre sincopado pela tchabeta e a corneta de chifre” (18).

 

 Salienta João Lopes que “António Pedro, encantado com os folk-motives de Cabo Verde, andou pelas ilhas e compôs o seu magnifico Diário que eu editei e foi o primeiro trabalho sobre Cabo Verde, transbordante de caboverdianidade entre nós” (Sublinhado nosso). O livro tem uma capa modernista de Jaime de Figueiredo e o editor registou no respectivo cólofon: “Este livro de António Pedro, onde se dá nota dos vários motivos que chamaram a sua atenção e a sua sensibilidade por este arquipélago de Cabo Verde e que em sua portada tem um desenho de Figueiredo, acabou de ser impresso na Imprensa Nacional de Cabo Verde” em 1929 (19).

 

Parece interessante referir que sendo António Pedro um activo seguidor das correntes surrealistas então em voga na Europa, aquela influência se repercutiu na essência de alguma da poesia que integrou o referido Diário. Aconteceu, no entanto, que esse tipo de abordagem literária, ainda praticamente desconhecida no arquipélago, não mereceu a correcta interpretação por parte da juventude, considerando indigno tal tratamento da realidade cabo-verdiana e em contestação “um exemplar do livrinho foi rasgado simbolicamente, em auto-de-fé, por um grupo de setimanistas do Liceu de S. Vicente (…) o qual para cúmulo, decidiu levar mais longe o seu protesto, remetendo ao autor, pelo correio, os despojos da sua intolerância” (20).

 

     Informa João Lopes que na altura o Jaime de Figueiredo “pintava afincadamente e fazia “sketches” e “canetas”, muitas das quais aproveitadas pelo Quintinha no Jornal Europa e no seu livro Oiro Africano. Quanto a óleos, o Jaime assim que os terminava, na ânsia da perfeição, achava-os imperfeitos e inutilizava-os. Entretanto, quase às escondidas, o António Pedro conseguiu enviar para Lisboa cinco óleos que, expostos no 1º Salão dos Independentes de Lisboa (1930), foram muito bem recebidos” (21).

 

    Também, no âmbito dos contactos com elementos externos, “vindo com o primeiro Governador do Estado Novo, creio que como secretário particular, apareceu entre nós José Osório de Oliveira (22), moço entusiasta por tudo o que fosse Cabo Verde. Teve vários contactos com o Jaime, Jorge Barbosa e creio que com Manuel Lopes em S. Vicente. Osório pouco tempo esteve na Praia, pois muito cedo foi colocado em S. Vicente, como Director dos Serviços dos Correios e Telégrafos” (23). A sua presença revelou-se importante junto dos intelectuais cabo-verdianos que estiveram na génese da Claridade, porque além de os incentivar localmente, depois do seu regresso a Portugal, apoiou a revista através de artigos e conferências, ou intervindo para facilitar a publicação de livros do “Grupo”.

 

   Como resultante de toda essa actividade cultural, informa João Lopes que “Jaime queria publicar uma revista, mas antes esboçava projectos de manifestos violentos contra a estagnação literária do meio. Imaginava títulos, escrevia passos, etc., que nos comunicava sempre com Presença debaixo do braço. Para a revista, projectava títulos vários, Atlanta, etc., etc.” (24).

 

    Em relação á mesma iniciativa, disse Manuel Lopes: “Esteve para ser publicada uma revista com esse nome, aí por 1931,na cidade da Praia, mas havia um abismo a separar, em Jaime Figueiredo, o sonho da prática. Foi-me pedido uma colaboração que mandei. Os outros colaboradores seriam Jorge Barbosa, Henrique Torres e Jaime Figueiredo. Tempos depois fui informado que a revista não se publicara” (25).

 

Confirmou Arnaldo França que “a anunciada publicação, em 1931, na Praia duma revista intitulada Atlanta mais não seria decerto que um encontro de reduzidas unidades, amalgamadas transitoriamente por um indefinido sopro de modernidade, latente em bem poucos” (26)

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    Nas palavras de Luís Romano: ”Dia a dia a consolidação da tertúlia se unifica. João Lopes vai para São Vicente. Aí desenvolve seus pensamentos e guia para outros caminhos Manuel Lopes que vinha publicando poemas no Almanaque de Lembranças” (27). Deste modo inicia-se aquela que denominamos “ terceira fase do movimento”, que aconteceu no Mindelo e consolidou-se com a publicação da revista em 1936.

 

   Dos participantes na “Tertúlia” da Praia, também foi para S. Vicente Jaime de Figueiredo, que Manuel Lopes apresenta como um “dos intelectuais mais vibrantes que eu conheci. De uma inteligência rara, todo ele vibrava em inteligência” (…) “Ele tinha um feitio muito especial se quiserem” (…) “O Jaime andava sempre no ar, com uma cultura extraordinária e, além disso, qualquer coisa que ele lia, tinha sempre comentários” (28).

 

      Entretanto, segundo João Lopes: “No meio desta euforia literária toda, caíram como uma dádiva de Deus, dois elementos que viriam mudar completamente o rumo disperso das nossas actividades, coordenando, congregando, seleccionando valores. Refiro-me à chegada, vindos de Lisboa, do Dr. Baltasar Lopes e mais tarde do Dr. António Aurélio Gonçalves” (29).

 

      Conforme Arnaldo França, com “a chegada de Jaime Figueiredo a S. Vicente, em 1931, para uma estada que se prolongaria até 1937, os que viriam a ser fundadores e colaboradores da Claridade eram todos das suas relações, pelo que a incorporação no grupo, se o já havia, ou o seu contributo à formação estava facilitada” (30).

 

     No que tange à publicação dessa revista, disse Manuel Lopes que “a Claridade nasceu após vários encontros, várias discussões” (31). Relativamente às mesmas, acrescenta Baltazar Lopes da Silva: “Sabe que o grupo Claridade apareceu curiosamente. (…) Nós encontrávamo-nos com certa frequência - umas reuniões muitas vezes tapagueses, à volta do grog-cocktail. (…) Nós vamos almoçar juntos, jantar juntos; e um dia nós fomos jantar a um restaurantezinho que havia cá, de um tal Adelino de Matos e, no meio do jantar, veio á baila a ideia de nós publicarmos um jornal” (32).

 

Relativamente a esta importante fase do processo em curso, Luís Romano salienta o papel desempenhado por João Lopes nos referidos debates: “Impondo-se pelo talento e visão como figura central das relações públicas e intelectuais entre os membros componentes do grupo Claridade, ele conviveu fraternalmente com todos os companheiros, muitas vezes servindo de mediador e conselheiro para consolidar a camaradagem necessária à vida da Revista” (33), a ponto de num outro texto, o mesmo autor realçar: “Seu poder persuasivo galvaniza”( 34).

 

    Como resultado daquelas trocas de ideias e pontos de vistas, conta Manuel Lopes que “um grupo de amigos pensou que se deveria criar uma revista que permitisse romper com a tradição clássico-romântica de motivos alheios à nossa realidade. Tínhamos matéria-prima que estimulava a nossa independência cultural. A tarefa era, portanto, fincar os pés na terra, pensar Cabo Verde, sentir Cabo Verde. Impunha-se aproveitar a matéria-prima local que os séculos de relativo abandono permitiam criar e conservar. Urgia essa consciencialização” (35).

 

    Contudo, Teixeira de Sousa afirma que “Jaime Figueiredo teria sido o motor da modernização das tendências literárias quando em São Vicente, onde esteve alguns anos, se juntou a Baltasar Lopes, João Lopes, a Jorge Barbosa para planearem a publicação duma revista cujo titulo seria Atlanta” (36).

 

Portanto, o projecto concebido por Jaime de Figueiredo na Praia, acompanhou-o quando se transferiu para São Vicente e terá sido a partir daquele que o “Grupo” se baseou para lançar uma revista, embora em novos moldes, no Mindelo. Todavia, acontece que, segundo Baltazar Lopes: “Jaime de Figueiredo (…) era um indivíduo extraordinariamente inteligente, mas um anti tudo… Ele depois desinteressou-se de revista” (…) “O Jaime de Figueiredo era (...) um grande teorizador, mas não escrevia uma palavra”. (…)” Ele não escrevia, realizava-se oralmente” (…) Depois, quando se tratou propriamente da publicação, é que ele se afastou (37).

 

    Daí que, face à sua tradicional rebeldia, Jaime acabou por abandonar o “Grupo”, levando consigo tanto o título Atlanta, bem como uma possível colaboração para o primeiro número. Perante a situação, informa Manuel Lopes: “Socorri-me dumas notas de gaveta a que dei o título de Tomada de Vista, para preencher a página e meia que Figueiredo deveria ocupar com um desenho e um ensaio” (38).

 

Para Félix Monteiro, “ convém acentuar que não foi a alteração do nome da revista, ou do programa respectivo, que provocou a deserção do Jaime do Figueiredo, nas vésperas da publicação do primeiro número da Claridade. O divórcio na opinião de Manuel Lopes, terá sido motivado pelo facto de ele não se sentir integrado no espírito do grupo, mas afinal - acrescenta – veio a resultar ideologicamente lucrativo (Diário Popular de 02-05-63). Justificando-se, Figueiredo esclareceria que considerava inconveniente a dedicatória a Osório de Oliveira, do poema Ecran de Manuel Lopes, que podia ter razões pessoais para homenagear Osório, mas a verdade é que tal dedicatória, no primeiro número da revista podia comprometer a independência do grupo, que nunca tivera nem precisava de padrinhos” (39).

 

     Ademais, falta acrescentar um pormenor muito importante àquela justificação, pois Félix Monteiro esclareceu que “no fundo Figueiredo tinha outras razões” para se afastar, ou seja de “Osório de Oliveira ter proposto a exoneração (40) de Jaime de Figueiredo do cargo de 1º aspirante dos correios, por este se ter recusado a tomar conhecimento da primeira Ordem de Serviço subscrito pelo novo director” (41).

 

 Referindo-se à pretendida publicação, disse Manuel Lopes: “Com a deserção do nosso companheiro de tertúlia aí por Novembro/Dezembro de 1935 (…), desanuvia-se a atmosfera e pensou-se seriamente no lançamento duma revista de raiz cabo-verdiana. Mas faltava o título. Lembro-me bem: estávamos no largo em frente do antigo correio, nas traseiras do Palácio do Governo, o Baltazar Lopes, Manuel Velosa e eu, quando após algumas sugestões rejeitadas, acorreu ao Baltazar Lopes o título provisório de Claridade (...) E ainda bem, pois acredito que Claridade foi um facho que iluminou não só a paisagem, como os caminhos literários futuros das nossas ilhas”(42).

 

     Porém, Baltazar Lopes explica a escolha: “Se bem me lembro, houve aqui duas sugestões quanto ao nome. Havia na Argentina, em Buenos Aires, um grupo Claridade, um grupo de esquerda, portanto, que nos era simpático. Por outro lado, naquela altura eu e Manuel Lopes – salvo erro o Manuel Lopes – eu pelo menos e o Manuel Lopes também, tínhamos lido Le Feu, de Barbusse, e sabíamos que Barbusse pertencia ao grupo Clarté e dai a ideia de Claridade. De maneira que há esta dupla influência, Argentina e Barbusse” (43). Convém salientar que Baltasar Lopes baptizou a revista com um nome que a princípio não foi bem aceite pelo grupo, porque “o Manuel Velosa rebatia que Claridade parecia uma coisa religiosa. Fomos habituando, o Velosa torceu o nariz, mas ficou aquele título”, complementa Manuel Lopes (44).

 

Mas, retomando o exemplo apresentado no início destes apontamentos, para  demonstrar a responsabilidade do Manuel Ferreira na perpetuação de incorrecções, citaremos os coordenadores da Antologia da Ficção Cabo-verdiana, publicada pela Associação Cabo-verdiana de Escritores, em 2001, que baseando naquele autor, a quem tecem encómios, afirmam peremptoriamente: “No início dos anos trinta do século XX, os escritores Baltasar Lopes, Jorge Barbosa e Manuel Lopes, respondendo às preocupações longamente alimentadas pelo grupo, criaram o movimento cultural Claridade, publicando em Março de 1936, o primeiro número da revista, melhor, do órgão de cultura com o mesmo nome” (45).

 

      No entanto, será de destacar ainda que, da mesma maneira como se vem propalando a citada desinformação (ou informação deturpada, o que para o caso vai dar no mesmo), também Baltasar Lopes é considerado, por muitos “intelectuais”, o “Mentor” do “Movimento Claridoso”. Porém Manuel Lopes (em 2001) é bem claro a este respeito: “ Muita gente supõe que o Baltasar é que formou o grupo, mas, na verdade, quando ele chegou a São Vicente (…) havia já grupos literários há bastante tempo” (46). E para que não restem quaisquer dúvidas, explicita: “Eu, o Jorge e o João Lopes dávamo-nos muito bem. E antes de eu conhecer o Baltasar já tínhamos as nossas reuniões literárias.” E continua: “Por exemplo, quando regressa de (Coimbra) Lisboa, não trazia nada consigo que provasse que tinha actividade literária anterior. Ali, com o grupo é que despertou para a escrita” (47). Informação que o mesmo autor reforça mais tarde (2004), nestes termos: ”Entretanto, depois veio o Baltasar, de Lisboa. Ele também era discursivo, não tinha escrito nada. Vim depois a saber que era um aluno distinto e então entrámos em contacto e começámos a falardos problemas de Cabo Verdfe.” (48). Por isso, acreditamos que, certamente, após o primeiro número da Claridade, Baltasar Lopes poderá ter passado a ser então o “dinamizador” daquela revista.

 

   Citando João Lopes: “Conclui-se, portanto, que o movimento consagrado pela Claridade, seguido pela Certeza e assimilado por muitos que se entroncaram naquelas duas revistas, ou mesmo na escola criada por elas, teve a sua origem na Praia, com o Jaime à frente e não em S. Vicente” (49). Portanto: A César o que é de César…

 

 

    De todo o modo, convenhamos que não terá sido nada fácil para o grupo ligado à Claridade a publicação da revista, porque para além “das muitas dificuldades até sair o primeiro número” (50), tenha-se em conta que desenvolveram uma acção inovadora na escrita então corrente em Cabo Verde e, como afirma Baltasar Lopes, tiveram de enfrentar “Salazar e a sua censura implacável, que não deixava passar qualquer vislumbre de autonomia de espírito” (51).

 

Com efeito, atendendo ao momento histórico e ao contexto político, poder-se-à considerar um acto de coragem, num dos “picos” da implantação do regime fascista, com todas as restrições impostas pela legislação, publicarem na “página de rosto”do primeiro número da Claridade os poemas em crioulo “Lantuna & 2 Motivos de Finaçom (batuques da Ilha de Santiago)” e, com a mesma firmeza, também no segundo número e na mesma página, “Vénus”, letra da morna de Xavier da Cruz, num desafio que representava quase que uma afronta às determinações relativamente ao uso da língua cabo-verdiana..

 

    Perante estas sucintas considerações, não nos parece correcto desligar a publicação da revista de todo o “processo” que a antecedeu e, principalmente, escamoteando o valioso contributo fornecido pelos diversos actores das “fases” que a precederam e de cuja dinâmica viria a resultar a Claridade.

 

       Supomos também que, com esta breve resenha, o olhar mais atento permitirá uma análise isenta de pré-juízos e manipulações, para se poder afirmar descomplexadamente que do chamado Grupo Claridoso, João Lopes foi o único elemento que participou activamente em todas as referidas três “fases” da Génese da Claridade, conquanto tal venha sendo sistematicamente ignorado e, do mesmo modo, dissimulado o papel que o mesmo desempenhou no decurso do processo.

 

Registe-se, ainda, que para além de colaborar nos números um e três, João Lopes passou a ser o Director da Claridade, a partir do terceiro número até ao desaparecimento da revista, e não seremos ingénuos ao ponto de acreditarmos que um “Grupo” constituído por elementos de tal gabarito, por bem esclarecidos, lhe teriam concedido aquele privilégio apenas pelos seus “lindos olhos”, como soe dizer-se geralmente.

 

      Relativamente à Direcção da Claridade, esclareceu Manuel Lopes quanto aos dois primeiros números: “O meu nome ali no cabeçalho não envolve um significado especial (…) Eu não passava dum director in nomine. (…) O João Lopes era uma espécie de globe-trotter do arquipélago. Sedeado na Praia, a sua profissão forçava-o a frequentes movimentações pelas ilhas” (52), demonstrando claramente porque é que este viria a assumir aquele lugar por direito próprio.

 

Corroborando estas constatações, Félix Monteiro que apesar de não ter participado nas reuniões, conviveu com elementos do “Grupo” e acompanhou de perto o evoluir dos acontecimentos, afirmou: “Outro claridoso da primeira hora foi João Lopes, director da revista a partir de 1937” (53).

 

Contudo, apesar desta realidade, denota-se uma nítida preocupação do Manuel Ferreira em marginalizar o desempenho de João Lopes no contexto fundador da Claridade. Intenção bem patente na maneira um tanto ambígua como (das poucas vezes)  a ele se refere no “Prefácio”, em que apenas faz alusões tentando secunderizar a sua acção, como se constata (p.e.) nas seguintes frases:

“ Mais afastado e não menos interessado, João Lopes” (p.XX), ou então “João Lopes (…) que andou muito próximo do grupo fundador” (p. XIX), expressões que deixam entender que ele não pertenceria ao grupo.

 

    Acrescente-se, também, que relativamente aos primeiros contactos do mesmo com intelectuais cabo-verdianos, na sua estadia em São Vicente, ao ser-lhe perguntado daqueles “quem é que mais destaca(va)”, Manuel Ferreira respondeu prontamente: “O Grupo Claridade, que era o Baltasar Lopes, o António Aurélio Gonçalves, o Jorge Barbosa, que não estava lá” (54). Registe-se, pois, o cuidado em mencionar um elemento que na altura não se encontrava naquela ilha, mas novamente ignorando João Lopes na qualidade de claridoso.

 

Gostaríamos de poder conceder a Manuel Ferreira o benefício da dúvida, baseando talvez no seu desconhecimento, na medida em que, apesar de ter levado dois anos para preparar o citado “Prefácio” à edição fac-similada da revista Claridade (Março de 1984 a Janeiro de 1986, como informa), todo aquele tempo não impediu que o mesmo esteja pejado de lacunas e informações incorrectas, a ponto de ele se sentir na necessidade de, com o livro já no prelo, acrescentar uma “Adenda” de cerca de duas páginas com elementos complementares seleccionados das entrevistas que nos foram concedidas por Baltasar Lopes da Silva, Félix Monteiro e Manuel dos Santos Lopes, todas publicadas no Ponto & Virgula.

 

Saliente-se, outrossim, que mesmo com tão longa laboração, o texto de Manuel Ferreira está atravancado de imprecisões. Atente-se, por exemplo, na seguinte informação: “Folheando a página de rosto, logo em letras gordas depara-se-nos o poema Ecran “ (p. LXIII), do qual transcreve quatro versos.

 

Esta simples passagem demonstra claramente o pouco cuidado posto neste trabalho, na medida em que o referido poema vem publicado nas páginas quatro e sete do primeiro número da Claridade, ao qual o mesmo autor avisa se circunscrever a sua análise (p. LXIX). Todavia, onde vem efectivamente publicado em “letras gordas”, na “página de rosto” e da autoria de Manuel Lopes, é o conhecido “Poema de Quem Ficou”, mas no terceiro número daquela revista.

 

Porém, a notória intencionalidade de Manuel Ferreira visando menorizar a actividade de João Lopes assume os contornos obsidiantes de cruzada, porque continua na  referência ao texto por este publicado no primeiro número da Claridade, onde começa por considerar de “suma importância as reflexões de João Lopes” (…) “que pela primeira vez” (…) “abordou o homem Cabo-verdiano em termos de materialismo histórico, de tal modo que o seu pioneirismo mantém-se actualizado no método e nos propósitos, e não pode ser de maneira nenhuma esquecido” (p .LXIX).

 

Todavia, parece que Manuel Ferreira se arrependeu daquelas referências de certo modo elogiosas, pois logo de seguida escreveu que “as reflexões de João Lopes são (…) complementares das de Manuel Lopes”. Vem ao de cima, mais uma vez, a pretensão em não só diminuir a participação de João Lopes na Claridade, como mesmo de apoucar o alcance das suas preocupações socioculturais.

 

Senão vejamos: Sendo que, como afirma Manuel Ferreira, o texto de João Lopes foi pioneiro, não se compreende como poderia complementar algo posterior, quando, pela lógica, passar-se-ia justamente o contrário dessa conclusiva análise.

 

Também, não será despiciendo o facto de, no “Prefácio” em apreço, Manuel Ferreira dissertar sobre o autor do Diário, o conteúdo do livro e acerca da respectiva capa, mas ostensivamente ocultou o editor daquela publicação, pormenor importante para um docente universitário de literatura, principalmente porque era a primeira vez que isso acontecia em Cabo Verde e, como tal, procedimento indesculpável a um académico, permitindo que se lhe atribua uma atitude premeditada.

 

Perante este conjunto de circunstâncias, aliadas a diversas asserções erróneas, se evidencia bem a pretensão de subalternizar o papel de João Lopes, por parte daquele docente de gerações de estudantes e, por isso, com grandes responsabilidades na transmissão de informações incorrectas, que vêm induzindo muita gente em erro, embora o visado nunca se tenha preocupado minimamente com o assunto.

 

     Num texto recente, Germano Almeida (55) afirmou que no seu convívio com João Lopes constatou que ele “era um homem de uma diversificada cultura (…) e também de uma modéstia quase doentia”. Acrescenta ainda: “Entre muitas outras coisas, contou-me a génese da Claridade, do grupo que restou (…) e que muito pouco se importava com o facto de ninguém se lembrar de o mencionar entre os fundadores da revista, embora tivesse sido seu director praticamente desde o princípio”, o que demonstra, portanto, a inexistência de quaisquer constrangimentos relativamente ao dispositivo de manipulação,  que ainda continua.

 

Sendo, por natureza, avesso ao mediatismo, João Lopes era uma pessoa de fazer, em lugar de se exibir em exuberâncias metafísicas e motivo porque são escassas as suas intervenções na comunicação social. Escusou-se quase sempre a conceder entrevistas,  preferindo antes colaborar “atrás do pano de boca” e deixar aquele papel para outros actores. Porém, não se pode ignorar que na qualidade de Director da Claridade e redactor dos jornais Eco de Cabo Verde e Noticias de Cabo Verde ou, ainda no convívio quotidiano, contribuiu activamente para o aparecimento de uma nova consciência literária.

 

Daí outra faceta de João Lopes prender-se com a preocupação de procurar passar aos jovens mensagens de incitamento, como nos dá conta Luís Romano: “Mantendo um círculo de relações literárias com importantes Homens das Letras de vários países, ao mesmo tempo que, como Mentor, indicava aos jovens valores Cabo-verdianos o Caminho da Libertação, a seguir através da Literatura, mesmo amordaçado pela Censura Envolvente” (56) [Sublinhado nosso].

 

     São disso exemplos elucidativos a seguinte passagem de Osvaldo Osório, pouco tempo após terminar o Liceu: “E devo dizer também que nem muita gente conhecia a Claridade - circulava num círculo bastante restrito. Mas conhecíamos as figuras da Claridade, foram nossos professores e mentores o doutor Baltasar Lopes, o doutor António Gonçalves. Outros também tivemos o prazer de privar, como João Lopes” (57).

 

 Ou ainda Germano Almeida, que escreveu, referindo-se a João Lopes: “Honrou-nos com a sua amizade. Convidava-me com frequência para passear com ele e conversava comigo [Sublinhado nosso]. (…) Era um homem de uma diversificada cultura que muito impressionava os meus vinte anos” (58).

 

     O próprio Luís Romano confessou ter sentido alguma indecisão inicial na escrita, “até que descobri João Lopes, meu fraternal mentor-cultural, durante longos anos de amizade e pesquisa sobre as gentes e as terras de Cabo Verde. Ele ensinou-me a acreditar no meu povo e a prosseguir nos meus escritos, até que um dia alcançássemos a Liberdade” (59).

 

Supomos que também merecerá referência o facto de João Lopes, estribado na formação que adquirira na “Extension University Law School”, a quando da sua estadia nos EUA, ter montado, de parceria com Baltazar Lopes da Silva, um gabinete denominado “Assistência Legal Popular”, de que nos dá conta Félix Monteiro, aludindo ao patrocínio que aquele causídico concedia gratuitamente aos “ patrícios que não dispunham de recursos para pagar honorários aos advogados”, “a todos atendendo mesmo em plena rua (como no caso que deu lugar ao excelente conto A Caderneta), mas principalmente no primeiro andar do Mercado Municipal, numa dependência do escritório de João Lopes, director da revista Claridade” (60).

 

      Acrescente-se que no âmbito dessa “militância cívica”, incluía-se ainda uma “vertente politica”, pois, traduzindo a confiança que João Lopes merecia à Juventude da altura, Arnaldo França descreve o seguinte episódio: “Terminada a guerra com vitória dos aliados, o governo Português viu-se obrigado a realizar eleições ditas democráticas à Assembleia Nacional. A juventude exaltada com a perspectiva, de imediato considerou a hipótese da candidatura do Dr. Baltazar Lopes da Silva. Foi a João Lopes que nos dirigimos pedindo-lhe que transmitisse o nosso desejo ao Mestre de todos nós, que aceitou o convite ao encontro que se viria a realizar de noite, na Pontinha” (61).

 

Mostra-se bastante plausível que toda essa contextualização tenha servido de “incubação natural” para o surgimento da surda perseguição e o ostracismo a que João Lopes foi votado quando os representantes do regime político colonial detectaram os fundamentos das suas pretensões. Daí ter escrito Luís Romano, que com ele conviveu de perto: “O mais grave padecimento que pode sofrer um Intelectual ou Artista é ser votado ao silêncio, ou então uma tácita manobra de NÃO-EXISTÊNCIA dentro do seu próprio ambiente social!

 

E se esse intelectual ou esse artista se destaca pela coragem com que irreverentemente encara uma determinada imposição politica que asfixia a comunidade local, neste caso eles se enquadram na Lista Negra das personas nom gratas (…) Foi isso que aconteceu com João Lopes nas duas últimas décadas da sua vida – Silêncio e Dificuldades – criadas num círculo fechado pelas manápulas de um Sistema Dominante” (62). Aliás, João Lopes tinha plena consciência desta situação ao afirmar que “não (sou) era persona grata dos Bento, Boletins & Cª ” (63), visto “ridicularizar muitos dos actos da administração de então” (64).

 

Acrescentou ainda Luís Romano: “Idealista com audácias que ultrapassaram e incomodavam a época, João Lopes tolhido pela incomodidade que lhe veio em seguida e pelas malhas do silêncio que se fez impor, torna-se um visionário consciente, a antever as mudanças na mentalidade alienada que se alastrava” (65).

 

 

Embora possa haver uma explicação racional para tudo, desconhecemos os motivos desta sanha de Manuel Ferreira em procurar marginalizar João Lopes, através de desinformações consequentes de uma atitude primária, visto não ter procurado confirmar as mesmas, denotando falta da coerência imprescindível ao estudioso, e dando azo a que os seus discípulos e seguidores contribuam para que a verdade continue a ser sistematicamente deturpada. Daí aventarmos a hipótese de que certamente não lhe tenha sido alheia a posição de João Lopes face ao sistema político vigente na altura (Não esqueçamos que Manuel Ferreira esteve em Cabo Verde como militar português em missão de soberania).

 

  Relativamente a Jaime de Figueiredo, outro elemento de certa maneira também praticamente proscrito no mesmo sentido, opina Luís Romano: “Podemos considerá-lo sem rodeios, nem melindres, um fundador do Movimento Literário de Cabo Verde, ciente nas possibilidades e amplitudes que a nossa cultura estética iria produzir” (66).

 

Acrescenta Arnaldo França que “Jaime de Figueiredo reivindicou sempre a sua condição de fundador da Claridade e intimamente ligado à génese da sua criação” , justificando que “a reivindicação de Figueiredo parece(-nos) assentar na convicção de uma prioridade na sintonização com os movimentos literários e artísticos do modernismo europeu, mais concretamente português”.Afirma o mesmo autor: “Jaime de Figueiredo um dos fundadores? Sim. É um fundador do grupo e da revista” (67).

 

    Finalizando, parece-nos ter ficado claro que João Lopes e Jaime de Figueiredo, embora geralmente olvidados, foram incontornáveis fundadores da Claridade – Revista de Arte e Letras e que ambos desempenharam importantes papéis que vêm sendo sistematicamente ignorados pelos estudiosos, não sabemos se por desconhecimento, se intencionalmente ou, parafraseando o próprio Figueiredo, “por que misteriosas conexões se engendra a mecânica dos factos e se processa a tessitura dos acontecimentos” (68).

 

(in Artiletra, n.º 85, Novembro/Dezembro 2007)

 


Notas

 

1 – LOPES, Manuel -  Entrevista in Vozes da Cultura Cabo-verdiana, Lisboa, Ulmeiro, 1998.

2 – FERREIRA, Manuel – “Prefácio” in Claridade – Revista de Arte e Letras (Edição fac-similada),

      Linda-a-Velha, ALAC, 1986,

3 – Com vista a não sobrecarregar as  “Notas”, sempre que ao longo do texto se deparar

       com   uma numeração em romano, colocado entre parênteses, trata-se da indicação da

       página do “Prefácio” de Manuel Ferreira, de onde a mesma foi transcrita (p. xx).

4 –LABAN, Michel - Cabo Verde. Encontro com Escritores, Porto, Fundação Eng.

      António de Almeida, s/d.

5 – ROMANO, Luís – “ O caso cabo-verdiano na moderna literatura” in Vértice nº 131-132,

      Lisboa, Agosto a Setembro de 1954.

6 – LOPES, Baltasar – Texto inserto na Claridade – Revista de Arte e Letras (Edição fac-similada),

      Linda-a-Velha, ALAC, 1986,

7 – LOPES, João -  “ Autobiografia” in  MEMORIAM DE JOÃO LOPES , Praia, Instituto de 

      Biblioteca Nacional e do Livro, 2007.

8 - LOPES, João – Idem, ibidem.

9 - LOPES, João – Idem, ibidem.

10 - ROMANO, Luís –  “ O caso cabo-verdiano na moderna literatura” in Vértice nº 131-132,

      Lisboa, Agosto e Setembro de 1954.

11 -LOPES, João – “ Entrevista” concedida ao programa radiofónico “Antena”, da responsabilidade

       de Guilherme Rocheteau, in Claridade, iPublicação comemorativa do cinquentenário, Praia,

              Instituto Cabo-verdiano do Livro, 1986.

12- LOPES, João -  “ Autobiografia” in  MEMORIAM DE JOÃO LOPES , Praia, Instituto de 

      Biblioteca Nacional e do Livro, 2007.

13 - LOPES, João -  – “ Entrevista” concedida ao programa radiofónico “Antena”, da responsabilidade

       de Guilherme Rocheteau, in Claridade, Publicação comemorativa do cinquentenário, Praia,

       Instituto Cabo-verdiano do Livro, 1986.

14- LOPES, João – Idem, ibidem.

15 - LOPES, João -  “ Autobiografia” in  MEMORIAM DE JOÃO LOPES , Praia, Instituto de 

      Biblioteca Nacional e do Livro, 2007.

16 - LOPES, João – Idem, ibidem.

17 – Antonio Pedro (1909-1966) – Natural de Cidade da Praia - Santiago, foi escritor, encenador

       e artista plástico. Tendo aderido ao surrealismo, de que foi um dos introdutores em

       Portugal, fez parte do “ Grupo Surrealista de Lisboa”, fundado em 1947, e integrou a

 I Exposição de Surrealistas de Lisboa. Nas artes plásticas dedicou-se à pintura e à cerâmica, tendo participado em diversas exposições, como o I Salão de Independentes, 1930. Possuidor de uma

formação artística, dos seus contactos com Jaime Figueiredo,  resultou um convívio estimulante para este.  

18- LOPES, João -  “ Entrevista” concedida ao programa radiofónico “Antena”, da responsabilidade

       de Guilherme Rocheteau, in Claridade, Publicação comemorativa do cinquentenário, Praia,

       Instituto Cabo-verdiano do Livro, 1986.

19- - LOPES, João -  “ Autobiografia” in  MEMORIAM DE JOÃO LOPES , Praia, Instituto de 

      Biblioteca Nacional e do Livro, 2007.

20- MONTEIRO, Félix – Entrevista in Vozes da Cultura Cabo-verdiana, Lisboa , Ulmeiro, 1998

21- LOPES, João – Idem, ibidem.

22- José Osório de Oliveira (1900- 1964) - Chefe de Redacção de Revista Atlântico, no que

      qual foi publicada a peça  balética de Jaime Figueiredo. Esteve em Cabo Verde no longo

      do ano de 1927 e a sua presença revestiu-se da maior importância  junto dos intelectuais

      que estiveram na génese de Claridade . Aoiou a revista através de artigos e conferências

    e no incentivo edição  em Portugal do Livro “ Mornas” de Eugénio Tavares e fez

     publicar  autores cabo-verdianos nas revistas  Descobrimento, O Mundo Português

      e   Atlântico.

23- LOPES, João -  “ Autobiografia” in  MEMORIAM DE JOÃO LOPES, Praia, Instituto de 

      Biblioteca Nacional e do Livro, 2007.

24- LOPES, João – Idem, ibidem.

25- LOPES, Manuel – Entrevista in Vozes da Cultura Cabo-verdiana, Lisboa, Ulmeiro, 1998.

26- FRANÇA, Arnaldo – “ Jaime de Figueiredo e a Claridade” in Publicação Comemorativa do

Cinquentenário de Claridade, Praia, Instituto Cabo-verdiano de Livro, 1986.

27- ROMANO, Luís – “ O caso cabo-verdiano na moderna literatura”in Vértice nº 131-132,

      Lisboa, Agosto e Setembro de 1954.

28- LOPES, Manuel – Entrevista in LABAN, Michel - Cabo Verde Encontro com Escritores,

        Porto, Fundação Eng. António de Almeida, s/d.

29 - LOPES, João -  “ Entrevista” concedida ao programa radiofónico “Antena”, da responsabilidade

       de Guilherme Rocheteau, in Claridade, Publicação comemorativa do cinquentenário, Praia,

       Instituto Cabo-verdiano do Livro, 1986.

30 - FRANÇA, Arnaldo – “ Jaime de Figueiredo e a Claridade” in Publicação Comemorativa do

       Cinquentenário de Claridade, Praia, Instituto Cabo-verdiano de Livro, 1986.

31 – MANUEL, Lopes – Entrevista concedida a SPINOLA, Danny – Evocações, Praia, Instituto de

        da      Biblioteca Nacional e do Livro, vol. 1, 2004.

32 – SILVA, Baltasar Lopes - Entrevista in LABAN, Michel - Cabo Verde Encontro com Escritores,

        Porto, Fundação Eng. António de Almeida, s/d.

33 - ROMANO, Luís –“ Testemunho”,IN MEMORIAM JOÃO LOPES, Praia, Instituto da

        Biblioteca Nacional e do Livro, 2007.

 34 - ROMANO, Luís – –  “ O caso cabo-verdiano na moderna literatura”in Vértice nº 131-132,

      Lisboa, Agosto e Setembro de 1954.

35 – LOPES, Manuel – Entrevista in LABAN, Michel - Cabo Verde Encontro com Escritores,

        Porto, Fundação Eng. António de Almeida, s/d.

36 – SOUSA, Henrique Teixeira de – Entrevista in LABAN, Michel - Cabo Verde Encontro

        com Escritores, Porto, Fundação Eng. António de Almeida, s/d.

37 - SILVA, Baltasar Lopes - Entrevista in LABAN, Michel - Cabo Verde Encontro com Escritores,

        Porto, Fundação Eng. António de Almeida, s/d.

38 – LOPES, Manuel – Entrevista in Vozes da Cultura Cabo-verdiana, Lisboa, Ulmeiro, 1998.

39- MONTEIRO, Félix – “Entrevista” in Vozes da Cultura Cabo-verdiana, Lisboa, Ulmeiro, 1998.

40 - MONTEIRO, Félix – “Entrevista” in Vozes da Cultura Cabo-verdiana, Lisboa, Ulmeiro, 1998.

41 – Portaria de 16-03-1927, in B.O. C.V. nº12 de 19-03-1927.

42 – LOPES, Manuel -  Entrevista in Vozes da Cultura Cabo-verdiana, Lisboa, Ulmeiro, 1998.

43 - SILVA, Baltasar Lopes - Entrevista in LABAN, Michel - Cabo Verde Encontro com Escritores,

        Porto, Fundação Eng. António de Almeida, s/d.

44 –MAIA, Maria Armandina – LOPES, Manuel - Rotas da Vida  e da Escrita, Lisboa, Instituto

        Camões, 2001. 

45 – DUARTE, Dulce Almada – ALFAMA, Jorge Miranda – Antologia de Ficção Cabo-verdiana,

        Vol. II,  Caridosos, Praia, AEP- Editores, 2001

46 - MAIA, Maria Armandina – LOPES, Manuel - Rotas da Vida  e da Escrita, Lisboa, Instituto

        Camões, 2001. 

47 - MAIA, Maria Armandina – Idem, Ibidem.

48 - MAIA, Maria Armandina – Idem, Ibidem.

49 – LOPES .João – Entrevista concedida o programa “Antena”, da responsabilidade de Guilherme

        Rocheteau, IN MEMORIAM JOÃO LOPES ,Praia.IBNL.2007

50 – ALMEIDA, Germano -  A Semana, de 06-04-2007.

51 – LOPES, Baltasar – Texto inserto na Claridade – Revista de Arte e Letras (Edição fac-similada),

      Linda-a-Velha, ALAC, 1986,

52 - LOPES, Manuel - Entrevista in Vozes da Cultura Cabo-verdiana, Lisboa, Ulmeiro, 1998.

53 – MONTEIRO, Félix - Entrevista in Vozes da Cultura Cabo-verdiana, Lisboa, Ulmeiro, 1998.

54 -FERREIRA, Manuel - Entrevista in LABAN, Michel - Cabo Verde Encontro com Escritores,

        Porto, Fundação Eng. António de Almeida, s/d.

55 - ALMEIDA, Germano -  A Semana, de 06-04-2007.

56 - ROMANO, Luís – Testemunho no IN MEMORIAM JOÃO LOPES, Praia, Instituto de

        Biblioteca Nacional e do Livro, 2007.

57 -OSÓRIO, Oswaldo - Entrevista in LABAN, Michel - Cabo Verde Encontro  com Escritores,

       Porto, Fundação Eng. António de Almeida, s/d.

58 - ALMEIDA, Germano -  A Semana, de 06-04-2007.

59 - ROMANO, Luís – Jaime de Figueiredo, Nossa Gratidão “ in Fragmentos nº 9-19, Praia,

         Março de 1993.

60 – MONTEIRO, Félix - “ A bandeira negra da fome” , in Publicação  Comemorativa do Cinquentenário da Claridade, Praia, Edição do Instituto Cabo-verdiano do Livro, 1986

61 – FRANÇA, Arnaldo – in “Prefacio” a IN MEMORIAM DE JAÃO LOPES, Praia, IBNL, 2007.

62 - ROMANO, Luís – “Testemunho”  IN MEMORIAM JOÃO LOPES, Praia, IBNL, 2007.

63 – Carta para José de Oliveira - Vidé espólios na Biblioteca Nacional de Lisboa.

64 – DELGADO, José Carlos – Testemunho IN MEMORIAM JOÃO LOPES, Praia. IBNL, 2007.

65 – ROMANO, Luís – “Testemunho”  IN MEMORIAM JOÃO LOPES, Praia, IBNL, 2007.

66 - ROMANO, Luís – “Jaime de Figueiredo, Nossa Gratidão”  in Fragmentos nº 9-19, Praia

    Março de 1993.

67 - FRANÇA, Arnaldo – “ Jaime de Figueiredo e a Claridade” in Publicação Comemorativa do

       Cinquentenário de Claridade, Praia, Instituto Cabo-verdiano de Livro, 1986.

68 – FIGUEIREDO, Jaime de - “Apresentação” in Modernos Poetas Cabo-.verdianos, Praia, Edições Henriquinas / Achamento de Cabo Verde, 1961.